Precisamos falar sobre o “Politicamente Correto”

Por Pâmela Martins Tezzele[1]

Três eventos recentes me instigaram saber mais sobre o uso e o entendimento do termo “politicamente correto”, tão em voga. Divido em dois momentos o meu movimento de reflexão sobre o termo: a compreensão do “informal” — com base no senso comum de pessoas do meu convívio (amigos, colegas de profissão, de trabalho e familiares) e a “compreensão formal”, onde resolvi pinçar de artigos disponíveis na internet o uso que pessoas de diferentes áreas tem feito do termo. Em relação a esse segundo passo, vale ressaltar que, obviamente, o intuito não foi fazer um trabalho exaustivo de pesquisa, afinal, em um primeiro momento, a minha intenção foi de apenas sanar uma curiosidade pessoal, assim como, de escrever esse breve texto, por isso selecionei um artigo de um profissional da economia e outro de acadêmicos das ciências sociais, sobre os quais, não terei condições de fazer um comparativo aqui, mas que me ajudaram a compor essas impressões.

Vamos às motivações:

a) a primeira motivação foi em uma consultoria para a qual fui chamada, uma senhora, da área da educação, com um cargo importante em uma escola, me questionou: “cá entre nós, você não acha um saco o “politicamente correto” tutelado pelas políticas de inclusão educacional?” — complementou ela — “e o direito dos outros trinta alunos que tem a aprendizagem atrapalhada pela presença em sala de aula, de alunos bastante comprometidos, principalmente, os que tem problemas comportamentais?”;

b) a segunda motivação foi uma conversa com o meu pai. O meu pai é um senhor de 65 anos, arquivista de formação, pós –graduado, um bom leitor, um homem culto, que tem como hobby conhecer a etimologia das palavras. Tudo isso para dizer que ele é extremamente capaz de fazer uma leitura crítica e que me alarmou, por alguns instantes, um fato: ele me ligou para me contar que havia lido um texto sobre o “politicamente correto”. Disse que havia “gostado”, me enviou e eu achei o conteúdo alarmante. Só me acalmei quando conversei com ele e ele me explicou que havia, na verdade, gostado da reflexão que o texto havia provocado, mas, que não havia concordado com a ideia do autor. Ufa!

c) a terceira motivação foi a série “Comedians in Cars Getting Coffee”, na qual humoristas renomados andam em belos carros retrô, a convite do comediante Jerry Seinfeld, que dirige e leva os convidados a cafeterias incríveis. Eles falam sobre a vida, sobre trabalho e, principalmente, sobre o papel controverso de fazer humor. O “politicamente correto” no humor, certamente, é assunto recorrente nos dias de hoje. Afinal, fazer humor às custas de etnia, obesidade, deficiências, machismo, pobreza, características físicas, gênero e etc., é, de fato, engraçado?

Voltemos aos pontos:

Sobre a consultoria — cujo foco era para ser a implementação de uma sala de AEE e o trabalho de adequação curricular para o Ensino Fundamental — II, confesso que não consegui disfarçar a minha indignação com a pergunta indutiva feita pela senhora professora: que o aprendizado dos “outros” era prejudicado pela presença de alunos incluídos. Já adianto a você, amigo leitor, que não sou uma educadora especial romântica. Consigo ver e criticar os sérios problemas da nossa área, tais como: a fragilidade teórica, os problemas de método pedagógico, as precárias condições objetivas, a apropriação do capital sobre a mão de obra barata fruto dessa educação e também, onde há o barateamento de estrutura material e pessoal, afinal, a Educação Especial como deveria ser, é cara. E isto, é claro, não é exclusividade da educação especial, mas do triste sucateamento geral da educação no nosso país. Ainda assim, não consigo entender como alguém com um cargo importante e uma formação na área de humanas, pode, de fato, achar prejudicial o convívio com a diferença, com a diversidade. E não estou falando só em socialização porque acredito que a educação inclusiva vá muito além disso.

Tive experiências difíceis, porém, riquíssimas trabalhando em escolas desprovidas de recursos materiais e de pessoal, onde eu era a única especialista na área. Há dez anos, na minha chegada em São Paulo, passei em um concurso público em um município que ainda “cultivava” as retrógradas classes especiais. Por não ter uma auxiliar, com 12 alunos com deficiência (alguns com graves comprometimentos), volta e meia, eu podia contar com coleguinhas voluntários que me auxiliavam na hora da alimentação ou na realização de alguma atividade. Era comum eles virem, por livre iniciativa, até a minha sala para convidar alguns dos meus alunos para participarem da “hora do conto” nas suas salas de aula ou das aulas de educação física, das quais, os meus alunos, da escondidinha classe especial, eram privados. Eles até achavam estratégias de “ensinagem” que acabavam servindo para eles ou até para os outros colegas ditos “regulares”. Ao mesmo tempo, gostavam de circular pela minha sala porque eu tinha uma variedade maior de materiais e uma disposição mobiliária um pouco menos tradicional. O toca –CD, quando usado, também era atrativo aos alunos voluntários de outras turma, pois deixava o clima mais descontraído.

Citei esses exemplos, para mostrar, pela minha experiência, que mesmo nesse caso onde os alunos da classe especial estavam apartados dos ditos regulares, acontecia, nos poucos momentos em que circulavam juntos, práticas inclusivas.

Caro leitor e amigo da Turma do Jiló, esse é o porquê que entendo que “incluir” é mais do que socializar e porque, dependendo da mediação docente, acredito sim que em iniciativas e espaços verdadeiramente inclusivos, TODOS só tem a ganhar.

Sobre o ponto dois, o texto lido meu pai. Pedi para que ele me enviasse e a síntese que pude fazer do texto é a seguinte: o autor, um professor doutor da área da economia, polariza a discussão entre: os defensores do politicamente correto — aqueles que entendem tratar-se de uma forma de tornar menos conflituosa a convivência em sociedade — e, aqueles que veem como um movimento que limita o debate e a livre circulação de ideias em uma sociedade, ideia esta, que parece ter a concordância do autor. Ele até menciona o sistema de cotas, o feminicídio, a misoginia, o “pisar em ovos” de manchetes que protegem supostos criminosos em nome dos direitos humanos e para não disseminarem ódio e etc.; e defende o fato de que o cenário está virando uma verdadeira “caça às bruxas”, onde apoiar determinados políticos ou ideias te leva a receber rótulos de misógino, de “reaça” , de machista da vez, entre outros.

Sobre isso, e daí compartilho com vocês um posicionamento pessoal. Não creio que haja espaço para o debate sobre o cerceamento de ideias quando do outro lado temos: segmentos marginalizados socialmente por cor da pele, classe social, gênero, opção afetiva ou limitação psico-física-sensorial. Temos para com estes segmentos, uma dívida histórica, a qual começamos “ontem” a correr atrás para reparar. Portanto, não cabe questionar ou debater. Como já mencionei em textos anteriores, o movimento pró inclusão social e educacional existem porque ainda, infelizmente, existem pessoas com deficiência que sequer tem seu direito de ir e vir garantido, mulheres e LGBT´s morrem aos montes, todos os dias, vítimas de violência e não conquistaram ainda a igualdade de direitos em relação à população hétero, branca e masculina. Jovens se suicidam diariamente vítimas de bullying e preconceito e não aceitam seus corpos por serem vítimas das imposições dos altos padrões sociais.

Se você é do time que diz “ah, que saco esse “politicamente correto! Quem nunca foi zoado na escola?” Recomendo que busquem maiores informações, principalmente, para diferenciar o levar apelidos e, vez ou outra, ser alvos de brincadeiras, do que é de fato o bullying[2] que, em suma, diz respeito a violência física ou psicológica, repetida, intencional e praticada por indivíduo ou grupo, causando dor e angústia e caracterizada por relações desiguais de poder, levando, comumente, a trágicos desfechos.

Isso me leva ao terceiro ponto, a linha tênue do humor e a preocupação dos próprios comediantes em ultrapassar limites. Não é raro acompanharmos polêmicas no Brasil envolvendo humoristas, que resultam em processos. No programa “Comedians in Cars Getting Coffee”, de forma recorrente, eles “batem na tecla” de que o humor sempre vai atingir alguém. Em um dado episódio, eles retomam que, antigamente, a censura de ideias partia de segmentos ultra-conservadores da política e da religião. Sobre isso, entendo eu, que havia uma conotação política, o que permitir circular e a quem destinar/formar? Hoje em dia, no entanto, esse “freio” está sendo atribuído aos liberais, aos grupos de “esquerda” (não se pretende adentrar na seara entrar da definição dos termos), mas no sentido de, sim, vigiar e punir, o que fere a dignidade do outro:

Abaixo, algumas confusões que percebo nos meus grupos de convívio sobre o sentido do “politicamente correto”:

  • “Aai, que saco! Não sei nem se posso fazer uma piada ou falar palavrão numa roda de amigos”.

Falar palavrão, a meu ver, pode não ser educado ou polido, mas, se não destinado a outro como ofensa, pode ser jogado ao vento, para expressar um sentimento ou resumir um dia ruim. Até li um texto um dia desses sobre a precisão conceitual do palavrão e que ele define, muitas vezes, melhor do que qualquer coisa, alguns estados de espírito. Já as piadas que ferem grupos em situação vulnerável ou a dignidade de alguém, não pode. Não é brincadeira. Temos um longo caminho a percorrer ainda, portanto, é tempo de não frouxar.

Gostaria de finalizar e compartilhar um desejo, ainda utópico, mas, em dias melhores, quem sabe! Desta vez quem vos escreve é o meu lado “amante dos animais”. Eu desejo, do fundo do coração, que o politicamente correto se estenda à prejudicada existência desses outros seres, tão massacrados pela ação humana. Outro dia “corrigi”, humildemente, o comentário de um professor que muito admiro. Este, ao compartilhar dados alarmantes sobre abuso parental disse que só um animal poderia cometer tais atrocidades. Respondi para ele que discordava, que tais atos são próprios do bicho homem, ironicamente, dotado de razão e livre arbítrio. Muito pelo contrário, já que animais protegem com unhas e dentes suas crias. O professor me escreveu agradecendo a intervenção e disse que realmente precisamos rever essas falas para deixar de naturalizar a violência contra os animais. Cito outras:

  • Apanhou que nem cachorro;
  • Trabalha feito burro de carga;
  • Enjaulados que nem animais;
  • Abusada que nem cadela no cio;
  • Mais magro que bicho de circo…

O politicamente correto no seu amplo sentido, na minha opinião, jamais deveria ser visto como um retrocesso, como uma amarra, como uma “chatice” e sim como um avanço no plano das relações sociais e nas regras do bom convívio.

Referência:

Weimann, Amadeu de O. , Culau, Fábio. Notas sobre o politicamente correto. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v14n2/v14n2a14.pdf. Acessado em 5 de julho de 2018.

[1] Educadora Especial, Psicopedagoga, Doutora em Educação, Membro da Equipe Pedagógica da ONG Turma do Jiló.
[2] Sugiro as pesquisas orientadas pelo professor Leon Crochik da Universidade de São Paulo;

Dica de leitura: CARLOS, João Pedro Cardia Sequeira. Bullying na adolescência: perfil psicológico de agressores, vítimas e observadores.Dissertação apresentada ao programa de mestrado integrado em Psicologia da Universidade de Lisboa. Acesso em 8 de junho de 2018, Disponível em http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/23170/1/ulfpie047687_tm.

Fonte: https://medium.com/@turmadojilo/precisamos-falar-sobre-o-politicamente-correto-64487ccd4fd9